Uma (não tão) breve timeline
Começamos em 2017.
1 ano vivendo em Braga, 1 ano de casada, primeira volta ao Brasil desde a mudança.
Já que eu estava por lá, aproveitei para fazer um checkup com a minha médica de sempre. Exames feitos, e ao mostrar os resultados para a médica, vem a frase que teria um impacto sem precedentes na minha vida relativamente curta de 26 anos.
"Você quer ser mãe? Pois seja o mais rápido o possível."
Nunca recebi uma convocatória para uma guerra, pelo menos não nessa vida, mas eu assumo que a sensação é bem parecida.
Apesar de já não ser 'nova para', ter um filho era uma meta distante, para uma versão de mim futura, bem diferente daquela versão desempregada, sem dinheiro, dependente em todos os sentidos, com planos de um mestrado, duas voltas ao mundo e pelo menos um cachorro.
Dei a notícia ao Paulo por uma chamada de vídeo, disse que se ele quisesse me largar eu ia entender. Ele escolheu ficar e pareceu até animadinho, nunca saberei.
Voltei para Braga, começaram as tentativas, e as frustrações.
2018
Visita de rotina na minha 'médica da família', deu uma alteração na minha tireóide.
"É melhor evitar gravidez."
Foi o álibe que eu precisava pra tirar de mim a missão que me foi dada e eu nunca refleti bem se eu queria. E assim como foi me imposta as tentativas, também foi me imposta a pausa. Não questionei nem uma nem outra.
2021
E a pausa durou 3 anos. Uma pandemia depois, estava eu em busca do meu burnout, trabalhando 12 horas por dia pra ganhar €200 por mês, quando numa sexta-feira às 7h da manhã meu joelho direito começa a pulsar sem motivo. Não caí, não me lesionei, nem fiz nenhum esforço, ele simplesmente resolveu pulsar.
Fui ao banheiro esperando que andar um pouco melhorasse aquela coisa estranha. Não melhorou. Minha pressão caiu e eu quase caio junto. O Paulo liga pra emergência que me manda para o hospital.
Análises, exames, consulta, depois de 8h sentadinha com a minha pulseira vermelha, a médica me diz que não sabe o que eu tive e que:
"Você não está grávida."
Eu dou uma risadinha e digo: eu sei que não, eu nunca estou. Eu vejo que pela primeira vez naquela consulta a médica se interessa em mim e continuo:
"Depois de 4 anos tentando seria muita ironia estar agora."
Ela muito intrigada responde:
"Vamos investigar."
E faz um pedido de consulta com o departamento de fertilidade.
2022
O pedido foi aceito e uns 3 meses depois estava lá eu, no 5º andar do Hospital de Braga esperando a minha vez.
Minha expectativa:
- Vão ouvir a minha história, passar uns exames e me dizer quais as possibilidades e opções que eu tenho para gerar ou não bebês.
A realidade:
"Onde está o pai?"
- Mas na carta que eu recebi dizia para vir sozinha
"É preciso dois para fazer uma criança, não sabia?"
E nesse clima de acolhimento fui mandada para um exame ginecológico ali mesmo, me passaram 2 exames sem nenhuma explicação e disseram:
"Só volte aqui com tudo feito e com o marido."
Passam uns dias, recebo uma ligação de uma senhora muito simpática e com o tom de que ia me dar uma notícia muito sensível, eu só não sabia porquê.
Ela queria confirmar a data da minha menstruação e a minha presença no exame que até hoje não consigo repetir o nome: Histerossalpingografia
Eu no auge da minha inocência cheguei para o exame SOZINHA, tranquila, achando que era mais uma ultrassom. Quando me trouxeram o termo de reponsabilidade é que comecei a ficar um pouco nervosa.
"Ninguém lhe deu o analgésico? Vamos assim mesmo."
Foi o que me perguntaram antes de me oferecerem a marivilhosa experiência da pior dor da minha vida até a data. No fim, a confirmação:
"Você tem passagem."
Exames feitos, traumas computados, e silêncio total do hospital. Alguns meses depois ligo e me dizem que a médica foi embora (ufa!), e que estão sem ninguém (shit!).
Foi só no fim do ano que chega a carta para uma nova consulta, dessa vez vou com 'o pai'.
Nova médica, menos militar que a outra, vê o histórico do Paulo e decide nos mandar diretamente para Guimarães, nos dá dois panfletos:
1. Inseminação Artificial
2. Fertilização in Vitro
Eram essas as nossas opções, no que o Paulo reage:
"Gêmeos!"
E eu entro em choque, por um lado por essas serem as únicas opções, ainda tinha esperança em algo mais natural, por outro lado...como assim gêmeos?
Passam umas semanas, o telefone toca, é a mesma médica:
"Foi decidido a FIV. A fila de espera é de um ano."
2023
Projeto gravidez mais uma vez engavetado, dessa vez uma pausa com duração um pouco mais previsível.
Janeiro, Fevereiro, Março, Abril, Maio, Junho, Julho, Agosto, Setembro...nenhuma palavra de Guimarães.
Outubro, estou eu no Brasil, sem passagem de volta, prestes a receber a minha sobrinha, que veio ao mundo sem querer querendo - como são as coisa da vida, não é mesmo? - Paulo me liga:
"Ligaram do hospital."
E a viagem sem data de volta ganhou uma, dia 05 eu estaria de volta a Braga para dia 06 estar em Guimarães em mais uma consulta, com o pai e com a médica.
Ainda com muito jet lag e choque térmico vamos lá a Guimarães, finalmente.
Entramos na sala e mais uma vez:
Expectativas: - Vão ouvir a minha história, passar uns exames e me explicar o processo.
Realidade:
"Dúvidas?"
Passaram exames, me fizeram uma ultrassom ali na hora mesmo, Paulinho teve que ir lá no outro dia fazer uma coleta especial - hehehe - e semana que vem teremos o novo capítulo dessa mais que novela, dessa saga.
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